23.10.14

amar cura.


passei boa parte da manhã com uma pessoa profundamente amargurada. e fiquei com muita pena dela. poucas coisas sufocam tanto quanto a amargura. eu particularmente acho até meio poético boa dose de tristeza, uma ponta de sarcasmo, essas coisas que os livros e os filmes fazem parecer bonito. mas não me conformo com a amargura. porque ela é um sofrimento ambulante, desagradável, uma doença que se alastra por quem estiver perto.
como disse algum sábio poeta de rua, amar cura a amargura. e não me refiro ao amor romanceado de que precisamos encontrar o outro lado da laranja e talz. falo do amor que humaniza, que poetiza, que torna tudo importante, inclusive as desimportâncias. me refiro ao amor que nos constrange a cuidar do outro pelo simples fato de ser um ser humano. é o amor que dignifica.
olhando pra essa pessoa hoje e orando intimamente por ela me recordei de uma conversa de anos atrás que tive com uma professora de faculdade (psicanalista brilhante e cristã exemplar). nós conversávamos sobre o quanto difícil é ser perder nas próprias angústias existenciais e que isso não é uma coisa menor e ou frescura e é sério. aí ela me disse uma frase inesquecível e que dar sentido pra muita coisa:

"estudar mais e mais psicanálise só aumentou minha fé, pois me fez perceber que só há cura na cruz."

guardei isso comigo. só há cura na cruz. para nós cristãos isso é vital. a cruz representa o ato máximo de um Deus misericordioso que se submeteu a grandes sofrimentos para nos trazer paz. a cruz é para o cristianismo o ápice do amor. e por isso ela nos cura. nos liberta de fardos pesados que nos impedem de caminhar. nos consola. nos incomoda para não nos acomodar diante de injustiças. só há cura na cruz, porque a cruz é a fonte do amor.

ok, ok, ok, você não é cristão e não acredita na cruz e isso é um direito inalienável seu, mas o princípio continua. só há cura na cruz. ops! só há cura no amor. neste ato louco de se doar por outro, de cuidar, de estar junto, porque a cura reside aí:  estar junto, não se sentir só. a cruz me cura pois me revela um amor constante. é possível encontrar amor constante, o que não é possível e não faz bem é se acostumar com o isolamento, a individualidade, o egocentrismo, porque o fim destas coisas é amargura, é o sofrimento que não suporta ficar consigo mesmo e se propaga para outros.
penso que se há algo que devemos compartilhar que seja amor. que sejam pequenos atos de gentileza. que sejam pequenas porções de graça. que seja dividir com o outro o que você tem de bom, ainda que seja apenas um sorriso. amar cura, e para o amor não há psicologia, fundamentos científicos, princípios filosóficos. "para o amor não há lei", foi o que a cruz veio me dizer.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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