3.5.15

Porque ela é tão importante?

Ou ainda: o amor cria irregularidades.



A minha série de TV favorita é uma ficção científica. Se chama FRINGE e abordava questões que do ponto de vista hipotético são absolutamente possíveis na Física, na Biologia e na Química como telecinese, hibridismo, mundos alternativos e quebra do tempo espaço. Eu sou apaixonada por essa série. Gosto de tudo a respeito dela. Mas principalmente gosto de um episódio em especial, o oitavo da segunda temporada: August.
FRINGE é trabalhada a partir de grandes segredos. Um deles é a existência de seres que podem viajar no tempo e apenas observam os costumes humanos. Eles aparecem em grandes momentos da história tem uma alta tecnologia e aboliram de seus organismos as emoções humanas. São chamados de Observadores e são seres típicos de uma distopia.
Como eu disse eles não interferem no nosso mundo, apenas observam e coletam dados para a sua “invasão” na última temporada. No entanto nesse episódio um dos Observadores sequestra uma moça. E boa parte do tempo a equipe FRINGE e os outros Observadores querem saber porque ele interferiu na vida da moça, porque ele a sequestrou, já que ela é uma pessoa absolutamente comum que não teria importância nenhuma nos rumos futuros do mundo. No meio do episódio descobrimos que a moça iria viajar de avião e a aeronave cai no meio do mar. Daí concluímos que: ele não a sequestrou e sim a livrou da morte. Os demais Observadores resolvem que a moça precisa ser morta já que esse é o destino dela. Ela não é importante, é o que eles dizem. A vida dela precisa ser destruída porque esse era o curso natural da vida.
A moça não tem importância e sua sina é morrer. Mas o August (é o nome do Observador em questão) diz que precisa mantê-la viva. Ele diz que ela é muito importante. Ele tem certeza que ela é muito importante. E em conversa eles percebem que só ele sente isso. Para os outros ela é insignificante, para ele, ela é especial. O engraçado é que todos os Observadores por não terem emoções humanas ficam confusos com a insistência do August. Ele sabe que os outros vão mata-la. E daí ele pede ajuda ao Walter Bishop. O Walter diz ao August que ele precisa tornar a moça em alguém importante. Ele precisa provar a importância dela para os outros.
O resultado: o August permite que o assassino que ia matar a moça mate a ele. Ele assume o lugar dela. Ele morre por ela e num diálogo final ele diz: “Ela é muito importante para mim. Acho que isso é o que eles chamam de sentimento. Acho que eu a amo”. O outro Observador reconhece: “Sim, agora ela é importante. Nada de mal vai acontecer a ela. Por causa dela um de nós morreu. Ela se tornou importante”.
Nessa hora eu morro de chorar. Há há há. E concluo em lágrimas: o amor que o August sentia pela Cristine (é o nome da moça) salvou a vida dela e humanizou a vida dele.
É legal ver distopias porque todas elas concluem o mesmo: o amor nos humaniza. O amor nos salva. Alguém ordinário se torna especial aos olhos daquele que o ama. E olhar concretiza a importância.
A segunda conclusão disso é: essa história do August me lembra o Cristianismo. De igual forma Jesus, movido por amor, morreu para que eu vivesse. O que era ordinário e sem importância. O que estava destinado a morte, na cruz  recebeu uma nova chance de vida e se tornou importante.

Durante 40 minutos de episódio a pergunta que todos fazem é: Porque essa moça é importante? O que tem de especial nela? E nos últimos 10 segundos descobrimos que ela é importante porque é amada por alguém disposto a morrer para que ela viva. Isso me traz uma lição fundamental: se eu acredito que Jesus morreu por amor para dar vida a mim e a outros, porque insisto em esquecer a importância disso e trato as pessoas de maneira tão negligente? Se eu vivesse lembrando disso a minha atitude natural seria olhar o outro (não importa quem ele seja) como alguém importante, não por si mesmo ou por méritos próprios, meu olhar devia ser de olhar o outro e admitir sua importância por que ele é amado a ponto de Alguém morrer para que ele viva. Não posso esquecer que o Amor humaniza e torna importante coisas ordinárias. O amor singulariza. E frequentemente o amor não faz sentido. Ele desconcerta mesmo.

15.2.15

Diário de Leitura: Enfim Faulkner!

"Mas isso seria uma solução simples demais para um Compson.
 Se não for complicado, não tem graça"
(pg. 290)



Faulkner me desestruturou. Simples assim.
Eu sabia que precisava lê-lo. Há anos eu colocava "O som e a fúria" nas minhas listas de leitura afinal é um clássico (e eu gosto de ler clássicos pra saber porque são clássicos!), mas nada me preparou para este livro. Foi uma experiência insana.
Mais que uma história o mestre de Gabo nos chama a viver uma experiência narrativa peculiar (pelo menos foi pra mim!). O Som e a Fúria exauriu minhas forças, me desgastou como leitora, me arrancou da minha zona de conforto e no fim só pensei: UAU como esse cara fez isso?!! Que mente e processo criativo louco!"

A minha trajetória de leitora foi poucas vezes desafiada de fato por uma proposta narrativa nova. Gabo fez isso comigo aos 16 anos quando peguei pra ler O amor e outros demônios. Eu estava acostumada aos mesmos personagens insossos de Dani Steel e cia, e aí Gabo gerou incômodo e inquietação; me provocou e eu o encontrei, e me apaixonei. Paixão que dura até hoje.
O mesmo aconteceu com Dostoievski e seus Irmãos Karamázov aos 20 anos: uma leitura tão exigente, uma experiência maravilhosa.
Aos 21 vivi a mesma situação com Kafka e aquele angustiante Processo: novo desafio, necessidade de oxigênio, nova paixão. Ano passado quase me perdi naquela complexa brincadeira do Cortazár (mais conhecida como  O jogo da amarelinha) e como me cansei e inquietou e fui fisgada e eternamente presa ao brilhantismo de um ser humano para pensar um livro desses.

Experiências narrativas singulares. Momentos que em ler deixa de ser um passa tempo e vira "passione" e provoca uma série de sensações que num virar de páginas te leva da frustração ao êxtase.

Aí começo 2015 com Faulkner implodindo o meu resto de juízo.
Superficialmente falando O som e a fúria retrata a decadência da aristocrática família Compson no decadente sul dos EUA num período de tempo que vai do início do século XX até década de 1930. A história tem foco nas complicadíssimas relações dos quatro irmãos Compson: Benjamin, Jason, Quentin e Candace e suas consequências.
O livro tem quatro vozes narrativas: Benjy, Quentin, Jason e Dilsey e é aí que Faulkner me quebra, pois ele exige que o leitor acompanhe não apenas uma história de quatro pontos de vista diferentes, mas sim o trabalhar de quatro cabeças em funcionamento. Somos imersos nos pensamentos, sensações e percepções deles, e tirando Dilsey que nos conta a história mais linearmente, somos forçados muitas vezes a acompanhar os fluxos de pensamentos mais desconexos do mundo. Temos acesso a loucura, aos ressentimentos, as paixões, ódios, lapsos de tempo, interposições de vozes e muitas outras interrupções que são próprias do pensamento e complicam por vezes o fluxo narrativo (especialmente quando estamos acostumados a uma narrativa impessoal e linear dos fatos).
Eu quase enlouqueci lendo uma das vozes narrativas, foi cansativo pro meu cérebro pelo excesso de interrupções. O livro exigiu muita atenção minha e em troca me presenteou com uma história poderosa e crua sobre as várias possibilidades de decadência humana.
A família Compson é um retrato claro de todos os tipos de loucura que estamos expostos: seja o transtorno mental, a deficiência; ou as loucuras mais perigosas, a paixão, o ódio, o orgulho, o ressentimento, a culpa, o egoísmo. O som e a fúria, é som e fúria, é uma experiência de leitura fantástica!
Gabo disse que Faulkner é um gênio. Se Gabo disse, então é.

P.s: tentei não fazer spoiler, o que é muito difícil pra mim. E ahhh, odeio Jason Compson.

2.2.15

gregório samsa acordou de sonhos intranquilos



um sonho me perseguiu, acordei e fiquei com ele na cabeça o dia todo.
o sonho é meio metafórico na verdade. ele me impressionou.
no meu sonho muito vívido cheio de cores, texturas, cheiros, sensações e sabores eu estava na sala de espera para embarque. uma sala muito semelhante a de embarque internacional de garulhos.
eu não tinha passado pelo chek in, sabia apenas que ia viajar, que numa dada hora meu avião chegaria, eu embarcaria e assumiria meu destino. eu não sabia pra onde viajaria mas estava empolgada pois essa viagem parecia importante demais. 
na sala de embarque pessoas entravam e saiam com uma grande frequência. e nesse fluxo apareceram três grandes amigos. fiquei tão feliz de vê-los. não os via há muito tempo: uma amiga faz faculdade em outra cidade, outro terminou a faculdade comigo e está no mestrado, a outra conseguiu um grande emprego quase nunca nos vemos. mas estávamos lá, nos encontrando nos bancos da sala de embarque. esperando que o número de nosso voo fosse proferido nos alto falantes. havia apenas uma diferença: eles tinham o bilhete de embarque. sabiam para onde iria, a que horas e que companhia pegariam. estavam tranquilos. e eu também aparentemente. estranhamente eu acreditava que viria alguém me avisar sobre meu voo. alguém viria! eu me apegava a esta esperança criada por mim mesma. meus amigos tinha expectativas concretas baseadas em planejamento e ação.
eu ficava feito uma louca feliz por revê-los e querendo tirar fotos com eles. mas havia uma confusão instalada. talvez na minha alma que me impedia de um contato mais profundo. parte da confusão impedia que eu tirasse fotos: eu perdia minha bolsa, a pessoa que eu pedia que tirasse a foto se recusava. pequenos contratempos aconteciam e eu não tirava fotos. a primeira amiga embarcava. nos abraçávamos numa despedida cálida.  eu ia até perto do avião. mas não era o meu. ficava com uma sensação de perda pois seria legal viajar junto com ela. mas pelo jeito meu voo era desconhecido e solitário.
estranhamente chegavam outros amigos e conhecidos. as cenas se repetiam: eu não conseguia uma foto sequer, eles sabiam pra onde ia e eu esperava. não sabia o que exatamente, mas esperava.
o sonho foi longuíssimo. as conversas eram reais, as pessoas iam me dizendo sobre suas vidas, e a medida que eu as ouvia intimamente me preocupava com meu voo, pois eu não sabia nada sobre ele. comecei a pensar que estava enganada. eu não ia voar... depois concluía que sim, eu iria voar, apareceria alguém da companhia! era uma angústia. e eu continuava sorrindo, abraçando E celebrando que tive a oportunidade de encontrar tantas pessoas queridas naquela sala de embarque. mas elas entravam naquele corredor rumo ao avião e ao voo e eu não. eu continuava na sala de espera indefinidamente..

acordei. a primeira sensação foi: sou um personagem do Kafka, só isso explica! daí pensei nas pessoas do sonho. de fato sinto saudade delas. de fato elas estão em voos bem altos e estranhamente eu estou à espera. de que? não sei. apenas sinto que gostaria muito de embarcar e enfim voar.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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