20.6.17

casa

Qualquer pessoa que me conhece minimamente sabe que existem coisas no mundo que me mobilizam profundamente. Uma dessas coisas é a vida refugiada. Oro por isso. Me mobilizo por isso dentro dos meus limites. Falo quase sempre sobre isso.
A condição do refugiado me toca por diversas razões que eu não saberia explicar. Por isso deixo aqui um poema que conheci ano passado e descreve exatamente a vida de 60 milhões de pessoas no mundo.




Eu conheci a Warsan Shire após o álbum Limonade. Ouvi suas poesias e fui pesquisar, no processo encontrei o poema Casa e meu Deus foi uma experiência transcendente de identificação.


Casa,


ninguém sai de casa a menos que
casa seja a boca de um tubarão
você só corre para a fronteira
quando vê a cidade inteira correndo também

seus vizinhos correndo mais rápido que você
fôlego sangrento em suas gargantas
o menino com quem você foi à escola
que te beijou e deixou tonta atrás da velha fábrica de latão
está carregando uma arma maior do que o corpo dele
você só sai de casa
quando a casa não te deixa ficar.

ninguém sai de casa a menos que a casa te persiga
fogo embaixo dos pés
sangue quente na sua barriga
não é algo que você já tenha pensado em fazer
até que a lâmina queimada ameaça entrar
no seu pescoço
e mesmo assim ainda você ainda carregou o hino sob
seu fôlego
só rasgou seu passaporte nos banheiros do aeroporto
soluçando enquanto cada pedaço de papel
deixava claro que você não ia mais voltar.

você tem que entender
que ninguém coloca seus filhos em um barco
a menos que a água seja mais segura que a terra
ninguém queima suas palmas
sob trens
embaixo de vagões
ninguém gasta dias e noites no estômago de um caminhão
se alimentando de jornais a menos que os quilômetros viajados
signifiquem algo mais do que jornada.
ninguém rasteja por debaixo de cercas
ninguém quer receber surra
piedade

ninguém escolhe campos de refugiados
ou revistas íntimas em que seu
corpo fica doendo
ou a prisão,
porque a prisão é mais segura
do que uma cidade de fogo
e um guarda de prisão
na noite
é melhor do que um caminhão
de homens que se parecem com seu pai
ninguém conseguiria suportar
ninguém conseguiria digerir
ninguém teria uma pele tão dura

os
vão embora negros
refugiados
imigrantes sujos
requerentes de asilo
sugando nosso país até secá-lo
macacos com as mãos abertas
eles cheiram estranho
selvagens
bagunçaram o país deles e agora querem
bagunçar o nosso
como as palavras
os olhares sacanas
escorrem pelas suas costas
talvez porque o golpe é mais leve
do que um membro decepado

ou as palavras são mais macias
do que catorze homens entre
as suas pernas
ou os insultos são mais fáceis
de engolir
do que cascalho
do que osso
do que o corpo do seu filho
em pedaços.
eu quero ir para casa,
mas casa é a boca do tubarão
casa é o tambor da arma
e ninguém sairia de casa
a menos que a casa tenha te perseguido até a praia
a menos que a casa tenha te dito
para apressar as pernas
deixar suas roupas para trás
rastejar pelo deserto
vagar pelos oceanos
se afogar
salvar
ter fome
pedir
esquecer o orgulho
sua sobrevivência é mais importante

ninguém deixa sua casa até que casa seja uma voz suada no seu ouvido
dizendo –
saia
fuja de mim agora
eu não sei o que eu me tornei
mas eu sei que qualquer lugar
é mais seguro que aqui.
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

12.6.17

Livrinhos



O meu quarto é um lugar que os meus sobrinhos gostam de estar. E uma das coisas que eles mais gostam de fazer é pegar os livros infantis na mala e ler. Eles fazem isso porque sempre me veem lendo e querem fazer o mesmo. Pedro com 10 anos já tem suas HQ’s e livros favoritos, Lhivia com 6 anos está aprendendo a ler e ama de paixão o livro da Mary Poppins e o livro Histórias de ninar para garotas rebeldes. Gustavo com 3 anos está na fase de leitura de imagens e adora um livrinho chamado O livro estreito  e a história dos Sete Camudongos.
Junto com eles fomos descobrindo livros que gostamos e histórias bonitas e que tratam de questões importantes.
Gleice, uma amiga de ONG vai fazer o chá de bebê da pequena Maria Flor de livros  me pediu indicações de livros. Pensei bastante e a priori queria indicar apenas livros que tratam de direitos humanos. Mas lembrei de histórias que tratam das relações humanas. Alguns das diferenças de geração e memória como o QUERIDO Guilherme Augusto Araújo Fernandes. Outros tratam da própria aceitação do seu corpo como o LINDO O cabelo de Lelê. Existem também clássicos que estão aqui com a única intenção de despertar a imaginação e reafirmar a importância da literatura fantástica, é o caso de Onde vivem os monstros. Coloquei também alguns com o único propósito de formar um senso leitor, e por isso tem livros do Mia Couto, do Saramago, do Neil Gaiman, do Graciliano.  Ah e claro, existem também biografias para crianças que são fundamentais, colocamos na nossa lista a Malala, a Frida, o Mandela, o Luther King, a Rosa Parks, a Channel. Nós (especialmente Lhivia e eu) gostamos demais da trajetória deles e esperamos que todas as crianças conheçam.



Perguntei a Pedro, Lhívia e Gustavo e lembrei de algumas histórias e separamos aqui 50 histórias infantis que nós amamos porque ou tratam de direitos humanos (feminismo, racismo, diversidade) ou aguçam a nossa curiosidade e imaginação. Eu lamentei muito porque boa parte desses livros é da extinta Cosac Naify que tinha um trabalho fabuloso com relação à qualidade dos livros infantis. Mas todos podem ser encontrados ainda. Vale a pena se não tê-los, ao menos encontra-los nas bibliotecas e espaços de leitura vida a fora.
Esperamos que vocês gostem da lista e que alguns desses livros façam parte da infância de muitas crianças.

Eis a nossa lista:

1.Histórias de ninar para garotas rebeldes (Elena Favili e Francesca Cavallo)
2. Matilda (Roald Dahl)
3. Menina bonita do laço de fita  (Ana Maria Machado)
4.Casa das estrelas  (Javier Naranjo)
5.Tanto, tanto  (Trish Cooke)
6. O cabelo de Lelê (Valéria Belem)
7. Malala. A menina que queria ir para a escola (Adriana Carranca)
8. Um outro país para Azzi (Sarah Garland)
9. Tudo bem ser diferente (Todd Parr)
10. É tudo família e outros parentes (Alexandra Maxeiner)
11. Migrar  (José Manuel Mateo)
12. O pássaro amarelo (Olga de Dios)
13. Antiprincesas – Frida Kahlo (Nádia Fink)
14. Antiprincesas – Violeta Parra (Nádia Fink)
15. Ser humano é  (Fabio Sgroi)
16. O cabelo da menina (Fernanda Takai)
17. One Love (Cedella Marley)
18. A esperança é uma menina que vende frutas  (Amrita Das)
19.A terra dos meninos pelados  (Graciliano Ramos)
20. Mandela. O africano de todas as cores (Alain Serres)
21. A árvore generona (Shel Silvestein)
22. Na noite escura (Bruno Munari)
23. Martin e Rosa (Raphaelle Frier e Zau)
24. Bichos que existem e bichos que não existem (Arthur Nestrovski)
25. Mary Poppins (P.L. Travers)
26. Felizmente o leite (Neil Gaiman)
27. Diferente como Chanel (Elizabeth Mattheus)
28. Onde vivem os monstros  (Maurice Sendak)
29. O nascimento de Celestine (Gabrielle Vincent)




30. O mundo black power de Tay’o (Kiusam de Oliveira)
31. Príncipes, princesas, sapos e lagartos (Flavio de Souza)
32. Crianças como você (Barnabas e Anabel Kindersby)
33. Exercícios de ser criança  (Manoel de Barros)
34. A grande questão  (Wolf Erlbruch)
35. As tranças de Bintou  (Sylviane Anna Diouf)
36. Começo, meio e fim (Frei Betto)
37. Minha família é colorida (Georgiana Martins)
38. Os direitos da criança (Ruth Rocha)
39. Flora (Bartolomeu Campos de Queiroz)
40. Olívia não queria ser princesa (Ian Falconer)
41. A democracia pode ser assim (Marta Pina)
42. Menina iluminada  (Neil Gaiman)
43. Minhas contas (Luís Antonio)
44. Gente pequena também tem direitos (Malô Carvalho)
45. Na cozinha nortuna (Maurice Sendak)
46. O gato e o escuro (Mia Couto)
47. Ynaí, a menina das cinco tranças (Ondjaki)
48. Ciça e a rainha (Neusa Jordem Possatti)
49. Guilherme Augusto Araújo Fernandes (Men Fox)
50. A maior flor do mundo (José Saramago)

Espero que Gleice, Pedro e Maria Flor gostem. Ah, e vocês também.

entre linhas



De quantas formas é possível que Deus nos encontre no caminho? De quantas maneiras Ele se "disfarça"? Por quanto tempo podemos caminhar com Ele ouvir seus sussurros e permanecer imunes? Somos iguais aos moços a caminho de Emaús sentindo-O, caminhando com Ele sem reconhecê-lo?
Uma coisa é certa: Deus é muito criativo e se revela nas coisas mais inesperadas. Inclusive as músicas da Lorena Chaves.
Vocês já notaram que a Lorena não cita o nome de Deus nas canções? Uma tradição tipo o livro de Ester, ou uma proposta tipo "Onde está Wally?". Isso me incomodava. E muito. Até que uma amiga me fez olhar para as músicas da Lorena sob uma outra perspectiva: estratégia! Segundo minha amiga a ausência do nome de Deus nas letras é uma forma de atrair todo tipo de pessoas à audição. Mesmo que não cite o nome, as canções revelam Seu caráter, Seus propósitos, Sua moral. Isso é uma alternativa de uma cultura (gospel? cristã?) que usa o nome de Deus de uma maneira muito leviana.
Teoricamente, é muito mais eficaz falar sobre Deus sem dizer seu nome em um mundo em que o uso do Seu nome tem sido mal utilizado. Essa estratégia por acaso foi usada pelo próprio Deus em duas situações: uma com Moisés na sarça ardente quando Ele se revelou como "Eu sou o que sou". E a outra foi acontecendo aos pontos tendo 1929 como sua culminância. Um projeto a longo prazo.
Minha imaginação é limitada.  A de Deus não.
Sabemos lidar com os rótulos que damos a Deus e ficamos surpreendidos quando encaramos um Deus sem rótulos.  No desconcertamos. Isso aconteceu com C.S.Lewis.
Não, o Lewis não ouviu o cd da Lorena Chaves. Ele foi uma das pessoas a quem Deus se apresentou de um jeito pouco ortodoxa, primeiro Lewis foi conhecendo Deus, depois ele encontrou o nome. Para Lewis o nome de Deus numa canção seria repulsivo, daí ele precisou conhecer o caráter, o propósito, e a moral antes do nome (acho que C.S.Lewis gostaria das canções de Lorena Chaves).
O Lewis hoje é famosinho de facebook entre os cristãos. Muitos compartilham suas citações e viram pelo menos um dos filmes de Nárnia. Poucos conhecem sua trajetória e sua obra e como uma foi fundamental para a outra. 
Desde cedo o irlandês travou uma luta com Deus. Em sua "autobiografia" Surpreendido pela Alegria (acabei de ler e estou em extase! leiam leiam!) Lewis nos conta sobre as habilidades criativas de Deus em se aproximar, e sua primeira estratégia foi colocar no rapaz inteligente  curiosidade e alma sedenta. Sedenta de que? Eis a questão, sedenta da completude que Lewis chamou de Alegria, sobre isso ele escreveu posteriormente que:

"Eu descobri em mim mesmo desejos os quais nada nesta terra podem satisfazer, a única explicação lógica é que eu fui feito para um outro mundo."

Eis um belo resumo da vida do Clive até 1930. Em Surpreendido pela Alegria somos apresentados a uma pessoa que teve uma infância em embate com um cristianismo institucionalizado que não lhe dava respostas e lhe tolhia vontades, resultado num distanciamento e posterior adoção do ateísmo como orientação de vida. Ele foi escolhendo caminhos que o afastariam da fé cristã irrevogavelmente, mas Deus criou caminhos dentro do caminho. A começar com uma alma extremamente inquieta diante das perplexidades da vida e com um cérebro apaixonado por livros e conhecimento.

No seu livro "O menino e seu cavalo"  Clive nos apresenta um personagem com sentimentos parecidos com que teve na vida: Shasta, o menino sequestrado ainda criança em Nárnia que vive na Calomânia e sem saber do seu sequestro se sente estranho naquele lugar e família e vive com o sentimento de que pertence a outro lugar. Assim após alguns acontecimentos Shasta sai em busca de Nárnia incentivado por um cavalo e no caminho encontra Aslan. Shasta já ouviu falar de Aslan na calomania como alguém mal e perverso mas ele não sabe a forma de Aslan, e este se apresenta como um leão e salva sua vida. Para Shasta o leão sem nome é bom e cuidador. Aslan é mau segundo o que ele aprendeu na Calomânia. Só no final do livro Shasta consegue associar o bom leão do caminho ao nome Aslan. Com Lewis a trajetória foi semelhante. E Deus sem nomear-se revelou-se a Lewis como Alegria a partir de duas fontes fundamentais para o jovem: os livros e os amigos. Sobre as artimanhas de Deus Lewis alertou aos desavisados:

"O jovem que deseja se conservar ateu convicto jamais poderá ser suficientemente cauteloso quanto as suas leituras. As ciladas estão em toda parte - 'Bíblias abertas, milhões de surpresas', como diz Hebert, 'finas malhas e armadilhas'. Deus é, se é que posso dizê-lo, muito inescrupuloso".

Amando livros Lewis começou a perceber que os melhores autores eram sempre cristãos. Ele se apegava aos escritos e questionava: porque alguém tão bom é cristão?! O ápice disso foi quando leu Chesterton. Ele ficou muito confuso ao pensar que alguém tão sagaz, tão lógico, tão coerente professasse a crença em Deus. Isso destoava do que ele conhecia de Deus a partir de sua experiência de fé institucionalizada na igreja da Irlanda. Para Lewis havia algo errado: como Chesterton, Johnson, George MacDonald, Milton, George Hebert e Spenser fossem escritores tão bons mas insistissem naquela esquisitice de serem cristãos.  (Vocês entenderam a sacada de Deus de se infiltrar na literatura que era o grande amor de Deus para alcançá-lo? Eu estou perguntando pois o texto pode estar um pouco confuso..) Aquela foi a primeira grande brecha que Deus encontrou na mente de Lewis. Ele foi obrigado a admitir que ouviu aquele sussurro apesar da relutância.
Chesterton foi responsável por outro golpe em favor de Deus: provou de uma maneira lógica a veracidade histórica dos acontecimentos dos evangelhos para Lewis. Este ficou imensamente intrigado! É difícil cultivar por anos uma corrente filosófica e de repente constatar que suas influências e referências tem outra opinião. Deus cutucou Lewis no seu maior bem: a curiosidade e inteligência.
Ao mesmo tempo Deus se apresentava a partir dos melhores amigos. Com Arthur Greeves, Lewis conheceu a importância da simplicidade e contemplação, nesse exercício ele concluiu que a natureza não é um mero acaso e que o monismo deveria ser refutado, pois só uma mente criadora explicaria a complexidade da natureza. Mas quem era essa mente tão simples e tão complexa?
Depois Lewis viu seu melhor amigo Owen Barfield capitular a fé cristã. Isso o intrigou sobremaneira. Barfield era alguém sóbrio que não se deixava enganar. Quem era esse Deus que fez o amigo se render?
Lewis chegou num ponto do caminho em que todas as placas indicavam Deus. Toda a canção falava sobre Deus só não citava Seu nome. E Lewis apreciou aquela canção. Mas relutou em admiti-lo. Em Supreendido pela Alegria ele compara sua relutância em conhecer a Deus como um jogo de xadrez. Deus, é claro era melhor enxadrista. E a última peça usada por Deus foi Tolkien. Acho que vocês conhecem esse senhor. Ele escreveu alguns livros aí. Era cristão católico e se tornou um grande amigo de Lewis. A vida de Tolkien e sua fé intrigaram o ateu. E com Tolkien Lewis constatou a verdade do evangelho.
Tolkien usou um recurso pouco ortodoxo. Ele disse a Lewis que o evangelho é um mito que de fato aconteceu. Isso desestruturou Lewis, pelo simples fato de que ele ADORAVA os mitos (para entender do que se trata o conceito de mito aqui sugiro que vocês leiam um texto de Tolkien que se acha fácil em ebook chamado Sobre contos de fadas, está num livro chamado Árvore e Folha. A explicação de Tolkien no livro sobre o evangelho como mito convenceu a Lewis e convence a qualquer um de nós).
Relutantemente Lewis se converteu ao evangelho convencido de que "o mito se tornou fato, a Palavra carne, Deus, Homem". Deus usou a lógica e as paixões de Lewis para atrai-lo. Com certeza não reproduzimos esses métodos na nossa ânsia de evangelização. Mas o fato é: Deus queria atrair um bom leitor, então Ele precisou usar as entrelinhas. As vezes a gente nem percebe mas nossas ações, livros e canções ainda que aparentemente não declarem de modo objetivo a Deus, são importantes entrelinhas que Ele se utiliza para se aproximar das pessoas.
Na sua autobiografia, Lewis registra que procurava a alegria sem admitir que aos poucos a Alegria se revelava nos livros e amigos (e o acompanhava a muito tempo) e isso o surpreendeu. A Brooke fez uma canção sobre o Lewis. Acho que sua autobiografia merecia uma canção sobre um Deus que se revela nas entrelinhas das relações, dos livros, das canções. Um Deus que sabe, deixa assim ficar subtendido. Fica a dica Ló Chaves.






Ailma Barros,
mais de mil perguntas sem resposta, muito prazer!

 
cata nuvens © Todos os direitos reservados | Ilustração :: Monoco | voltar para o topo