5.3.14

Endemismo.


Estou vivendo uma rotina intensa de despedidas e promessas de reencontros. Alguns amigos estão indo embora conquistar o mundo enquanto eu continuo aqui no mesmo latifúndio. Hoje Ilka se mudou pra Salvador para começar a residência médica em pediatria, no domingo Larissa parte pra Vitória para iniciar o mestrado, ano passado Gabriela foi morar em Curitiba depois de passar num concurso. São apenas alguns dos vários amigos que vejo partir. E esses dias fiquei com uma obsessão: dar a meus amigos lembranças do sertão: quadros; pequenas plantas; bugigangas sem fim, que os obrigue a lembrar do lugar de onde vieram e com sorte lembrar da amiga boba que deixaram pra trás.
Não sei, as vezes me assalta essa ideia louca de que alguns migrantes tentam criar novas realidades, se reinventar e esquecer de onde vieram. Lembro que meus olhos encheram d'água quando o Guimarães Rosa escreveu que o sertão é dentro da gente. Eu espero que seja mesmo. Pois penso sinceramente que podemos conquistar o mundo mas sem perder de vista nosso ser- tão. Pra mim o sertão é isso: um espaço geográfico onde exaurimos nossas possibilidades de ser. Ser-tão gente, ser-tão forte, ser-tão resiliente... Tão o que quisermos. Não gosto de pensar que alguns dos meus bons companheiros de jornada possam perder de vista esse elemento identitário tão forte. Por outro lado, sei que essa é uma inquietação minha. Não posso impor aos outros minha neuroses. Mas posso escrever sobre isso aqui e deixar suspenso no meu quintal como uma nebulosa nervosa. 
Acho que as plantas nos dão uma boa lição sobre isso. Existem áreas endêmicas, locais onde um grupo específico de plantas se desenvolve exclusivamente ali.  Tal qual boas plantas, precisamos lembrar qual nossa origem, onde nossas raízes se estabeleceram, qual o terreno em que de fato crescemos de maneira adequada. Caso contrário nos tornamos aquelas plantas artificiais que só enfeitam mas não tem efeito prático.Cactos na Sibéria. Tenho essa teoria que sofremos de endemismo também. Corremos o mundo, mas no fim há um pequena falta do lar. Ou ainda, por mais que a Terra de Oz seja encantadora, sentimos um ponta de falta do Kansas, que é cinzento mas é nossa casa.
Gosto de antropologia e em especial a ideia da necessidade humana de pertença. Um espaço e um lugar pra dizer que é seu.  Um lugar que sobre certos aspectos é você: guarda suas lembranças, suas esperanças, seus receios. A primeira janela pela qual você percebeu que precisava conhecer o mundo.
Eu particularmente tenho os mesmos anseios de Sam de O Senhor dos Anéis: conhecer a Terra Média sem esquecer das doçuras do Condado, visitar elfos e viver aventuras e no fim voltar para o Bolsão e casar com a Rosinha. É um bom jeito.
Isso me lembra aqueles povos que não tem território. Como o Dalai Lama expulso do seu Tibete ou os curdos por exemplo, que são uma nação estruturada, mas sem território: jogados ao vento, a sorte e a boa vontade dos países onde vivem, mas no íntimo eles querem a parte que lhes cabe nesse latifúndio. Eles querem ser mais que uma identidade marcada pela ausência. Eles querem sua região endêmica. É um querer muito justo. Dessa maneira, acho que nós que temos nosso canto demarcado não podemos esquecê-lo, por que no fim o sertão é dentro da gente.

2 !:

Hilza de Oliveira disse...

Lindo, Mima! Bem disse que o homem é um produto do meio. O sertão é símbolo de resistência! Ser-tão forte!
Até hoje judeus e israelenses brigam pelo mesmo lar... Não seria mais fácil compartilhar? Fundir-se e criar um novo povo?
Todos queremos um lugar para onde voltar...

Gizelle disse...

Que coisa mais linda,meu bem.
Realmente o sertão está na gente, e temos esse privilégio de sermos ser-tão em vários aspectos. Saudade de um abraço teu. Bjo.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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