24.8.12

Clube da Macabéia S/A

Pergunto eu: conheceria ela algum dia do amor o seu adeus? Conheceria algum dia do amor os seus desmaios? Teria a seu modo o doce voô? De nada sei. Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só. A nordestina se perdia na multidão. 
(A hora da estrela, pág. 56)



Sim, são moças nordestinas. Sonhadoras. Provavelmente não são modelos de beleza que saem na capa da Boa Forma. Tem pouca experiência em iniciar conversas com rapazes. Elas em algum momento vão falar de prego e parafuso. São acostumadas a grandes silêncios. E vezenquando sentem um vazio não explicado na região do tórax. Por breves períodos de tempo são alheias ao mundo e este é sempre alheio a elas. Não chamam a atenção, não estão na moda, são invariavelmente engraçadas e muito atentas as coisas delicadas dessa vida. As vezes se importam com a sobrevivência das moscas e vez por outra ingerem aspirina pra aliviar  a dor no coração. Os moços não sabem lidar com elas e sempre preferem a amiga Glória.
Reagem a vida com muito humor apesar dos muitos não que recebem. Cantam desafinadas. Sim, elas são moças nordestinas, nascidas num sertão desacreditado. Se você não olhá-las com bastante cuidado vai considerar que são feias. E talvez sejam. Elas são incompetentes para a vida. Falta-lhes o jeito de se ajeitar. Elas estão para além das aparências. Hoje elas perdem tempo com Olímpicos da vida; mas o futuro é generoso com elas. Talvez a mulherice tarde a chegar. E sim essas essas moças ficam inesperadamente felizes com arco-íris aos domingos. E guardam para si o luxo de ir ao cinema uma vez por mês. Elas gostam de Coca Cola, vestem-se de si mesmas e passam os dias representando com obediência o papel de ser. As vezes cobiçam por um leve instante livros esquecidos sobre as mesas. No fim, elas precisam da esperança louca e cega de que terão um destino fabuloso e conhecerão um estrangeiro chamado Hans de olhos azuis ou verdes ou castanhos, vasto é o mundo de possibilidades. No fim elas esperam que a hora de estrela de cinema chegue. E logo.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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