9.1.15

je suis



Me fingi de morta e não deu muito certo. Não toquei no tema porque sinto volta e meia que sou de fato uma chata de galocha insuportável que tem pouca paciência com hipocrisia e oportunismo. E nestes últimos dias meu nível de tolerância foi pro espaço. Sei que o atentado que ocorreu na França é sério, lamento as mortes que aconteceram da maneira mais absurda. Concordo que devemos nos preocupar com o nível de extremismo e intolerância que imperam hoje no mundo, incluindo o nosso próprio extremismo muitas vezes. Mas não deixo de me perguntar se estamos falando tanto em Charlie Hebdo porque as grandes empresas de comunicação estão falando ou é apenas o nosso senso de justiça à humanidade, o nosso amor aos direitos inalienáveis do homem (como vida e liberdade de expressão)? E pra minha própria tristeza sinto que é a primeira opção. 
Como ainda não começou o BBB e as novelas estão fraquinhas falemos de Hebdo. Sejamos coléricos e passionais ao falar deste atentado contra a vida (e o ocidente, se estadunidenses fôssemos). Sei lá. Acho tudo isso muito falso. 
Suspeito que nem 70% das pessoas conheciam o trabalho do Hebdo. As que como eu já tinha ouvido falar, foi por causa das ameaças que o editor chefe sofria e foram assunto no mundo a uns anos atrás. E hoje todo mundo é Charlie.
O sofrimento, a dor e a revolta contra este atentado são justas. Mas o que de fato de me incomoda é: porque só por isso? Desastres piores e corriqueiros acontecem no Congo e no Sudão em guerras civis violentíssimas e não vejo ninguém fazer hashtags sobre o tema. Não vi ninguém falar dos meninos soldados ou das meninas estupradas pelos exércitos guerrilheiros (números que são absurdos). A própria situação de hostilidade extrema que as pessoas de religião islâmica vêm sofrendo dentro da França merecia uma revolta do mundo. E porque só vejo silêncio? Porque tenho que procurar tanto para saber que a situação dos campos de refugiados do Sudão do Sul é tão desumana e que os sírios vagam por países como o povo com o maior número de refugiados no mundo? 
Porque essas dores não viram textões no facebook ou hashtags no twitter ou foto e mais fotos no instagram? É porque não são brancos, franceses e ricos? 
2014 foi o pior ano para crianças e pessoas refugiadas, excetuando pessoas que trabalham com direitos humanos, não vi ninguém se referindo a isso. Vejo todo mundo parabenizando a Malala, que era correspondente na BBC e penso nas outras meninas que não tem voz no mundo ocidental e precisam enfrentar talibãs ou outros extremistas malucos todo dia. Porque não vejo hashtags sobre elas? Meninas foram sequestradas de sua escola na Nigéria e continuam enclausuradas e não vi nenhum jornal com edição especial sobre a questão. E os estudantes do México? Acho que mereciam um clamor. Será que a gente nunca vai sair desse ciclo de chorar pela morte dos ricos e continuar fingindo que a morte e o sofrimento dos pobres não existe? 
Não sei. Sei que me incomoda viver num mundo que diz que o 11 de setembro foi o evento mais devastador deste século. Há desastres maiores, que estão acontecendo agora e não vejo sanção alguma de ONU e cia a todo tipo de atrocidade que se está sendo feita, especialmente na Ásia, na África e na América Latina. É pra gritar pelos direitos inalienáveis? Gritamos! Mas direitos de quem? Hoje não sou Charlie Hebdo. Infelizmente aqueles jornalistas fantásticos morreram. E lamento que os direitos deles a vida e expressão foram roubados por dois radicais. Porém entendo que há outras pessoas com direitos ameaçados e prefiro falar delas. Hoje eu sou (em oração e solidariedade) a comunidade argelina na França, pois esta deve está sofrendo todo tipo de retaliações de simpatizantes do discurso extrema – direita e fascista. Hoje sou todo imigrante que vive em Paris e sabe que seus dias vão piorar.
Charlie, um salve pra você, contudo Hebdo, você sempre teve voz, ainda que te calaram; e eu só posso me indignar por quem nunca teve.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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