13.3.14

há uma chance

Ou ainda: um olhar mais atento à tragédia humana.

Tem horas em que o excesso de correntes e informação no facebook serve de alguma coisa. Nos toca, comove, incomoda. Hoje fui convidada a participar de um Desafio de Poesia e segundo a regra desafiei amigos na referida rede social. E lá vem Dona Bianca Souto com o Velho Buk. Sim, aquele Buk, Bukowski! O Charles que sempre me provoca controvérsias. O fato é que Bia partilhou o poema, é lindo e eu na hora tinha que registrá-lo aqui.



O estouro


(...)
há tamanha solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.
pessoas tão cansadas
mutiladas
tanto pelo amor como pelo desamor.
as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras
cara a cara.
os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.
estamos com medo.
nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores.
eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios.
ou do terror de uma pessoa
sofrendo sozinha
num lugar qualquer
intocada
incomunicável
regando uma planta.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
suponho que nunca serão.
não peço para que sejam.
mas às vezes eu penso sobre
isso.
as contas dos rosários balançarão
as nuvens nublarão
e o assassino degolará a criança
como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete.
demais
tão pouco
tão gordo
tão magro
ou ninguém
mais odiosos que amantes.
as pessoas não são boas umas com as outras.
talvez se elas fossem
nossas mortes não seriam tão tristes.
enquanto isso eu olho para as jovens garotas
talos
flores do acaso.
tem que haver um caminho.
com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda
não pensamos.
quem colocou este cérebro dentro de mim?
ele chora
ele demanda
ele diz que há uma chance
(...)

2 !:

Luci Alves disse...

Não sei como expressar o quanto este poema é verdadeiro!! Lindo, triste e infelizmente verdadeiro!

Jennifer disse...

Esse poema me comove D-E-M-A-I-S. Tanto que às vezes, sem perceber, estou a declamá-lo em mente "As pessoas não são boas umas com as outras", repetidamente. Você, como sempre, encontrando o melhor da poesia. A que toca no íntimo, denunciando o que não conseguimos pronunciar.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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