10.1.14

Olhe para o mundo Georg


Olhe para o mundo, Georg, olhe para o mundo antes de mergulhar na física e na química.
Neste momento, grandes rebanhos de renas estão percorrendo o Hardangervidda na ventania. Na ilha de Camargue, entre os dois braços do delta do Rhône, pululam milhares de flamingos rubros como o fogo. Belas manadas de gazelas saltam como que por encanto nas savanas da África. Milhares e milhares de pingüins pairam uns com os outros numa praia gelada da Antártida, e não sentem frio, gostam das temperaturas de lá. Mas não só a quantidade é importante. Um alce solitário perambula num bosque de pinheiros no Leste da Noruega. No ano passado, um deles se perdeu e veio parar aqui no Humlevei. Um lemingue assustado se esgueira entre as tábuas de uma cabana de Fjellstolen. Uma foca rechonchuda desliza numa ilhota próxima de Tonsberg e cai na água.
Não me venha dizer que a natureza não é um milagre. Não diga que o mundo não é um conto de fadas. Quem não percebeu isso, talvez só chegue a compreendê-lo quando a história já estiver chegando ao fim. Porque, então, nós temos uma derradeira possibilidade de tirar os antolhos, uma derradeira oportunidade de nos entregarmos a este milagre do qual temos de nos despedir, o qual temos de deixar.
Será que você entende o que estou tentando exprimir, Georg? Ninguém se despede chorando da geometria euclidiana nem da tabela periódica dos átomos. Ninguém derrama uma lágrima que seja por estar se separando da internet ou da tabuada. É de um mundo que nos despedimos, é da vida, é do conto de fadas e da aventura. E, além disso, temos de nos despedir de um pequeno número de pessoas que realmente amamos."
"Quem garante que não há um novo “cenário” para a alma? Eu não acredito, palavra que não. Mas o sonho do improvável tem nome. Chama-se “esperança”.

"Depois de ler os últimos parágrafos da carta, finalmente compreendi por que sempre me interessei pelo espaço sideral. Meu pai abriu os meus olhos para ele. Ensinou-me a desviar a vista de tudo quanto nos incomoda aqui embaixo e olhar para o alto. Eu já era um pequeno astrônomo amador bem antes de ter consciência disso."



- Jostein Gaarder em A garota das laranjas

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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