30.1.14

a impostora


o suco de carambola esquentou, virou sopa e foi jogado fora. Apontou mais uma vez o lápis, e depois apontou novamente. Sentiu sede e pensou seriamente em levantar-se e resolver a coceira na garganta, mas não poderia sair daquela cadeira enquanto o papel estivesse em branco. Tossiu.


nada na cabeça. Nenhum pensamentozinho. Como será que o Joyce conseguiu escrever Ulysses apenas olhando para um papel em branco? Talvez não tivesse talento algum para a escrita. Melhor era desistir. Levantar, acender as luzes, tomar um banho. Percebeu que tinha fome. Jogou o lápis fora. Não servia para aquilo. Ficou as duas horas seguintes olhando inerte para a televisão em modo silencioso. Não fazia ideia do que se passava, apenas olhava. 

desistiu.

dias depois jogou todos os papéis fora. Abriu as gavetas e foi recebida por uma quantidade generosa de poeira e de imediato lembrou do amigo que disse que poeira era o resto de nós. A poeira é nossa pele morta. Havia muito de si naquelas gavetas. Talvez toda a sua pretensa escrita estivesse dissolvida na poeira grudenta daquela gaveta emperrada e pouco visitada.

encontrou papéis inúteis, anotações sem sentidos, cupons de bancos e lojas, uma declaração de amor, tickets de cinema e daquele show. e lá mais empoeirado que tudo mais, estava o diário. Justo aquele diário que se dizia secreto e todavia era mostrado a todas as melhores amigas.

falando nisso... onde estavam as melhores amigas?

se deu conta que não lembrava nem o nome delas. E tinha apenas uma vaga noção de rosto.

abriu o caderno.

03 de agosto de 1999...
hoje Lucas falou comigo, e depois encontrou mil motivos para esbarrar ou fazer contato visual. Acho que ela gosta mais de mim do que demonstra... 

aí lembrou: nunca existiu Lucas, ou Vitor, ou Eduardo, ou o alemão Klaus e aquele menino da Bahia que cantava músicas do Dorival Caimi no ouvido. Não existiam viagens para Curitiba ou Campo Grande. Ela nunca tinha ido ao exterior. O seu pai nunca foi gerente de banco e nem a mãe médica. Ela nunca comeu ostras.

e no entanto essa era a vida que as amigas - das quais não se lembrava mais - lembravam dela. Uma vida tão agitada, tão invejada, tão amada.

todas as amigas riam e secretamente tinham inveja da sorte que Lila tinha.
a questão é que esta não era a vida de Lila, na verdade, nem havia Lila. Seu nome era Tereza, como o poema de Bandeira, mas o evitava porque tinha vergonha na época, era nome de velho ou de pobre.

naquele caderno tinham as memórias de toda uma vida sua que nunca viveu, ou que viveu apenas na imaginação

pegou a máquina de datilografia e começou a passar a limpo tudo o que tinha no sagrado caderno. Era sua melhor história, na verdade a única.
a página inicial vinha um aviso:

a vida não é a que a gente viveu
e sim a que a gente recorda
e como recorda para contá-la.
(Gabriel Garcia Marquez)


Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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