22.2.12

Gabices.

A madrugada - em seu sentido poético - é uma hora quase lendária para nossa geração. Tínhamos ouvido nossos avós dizer coisas fantásticas daquele esquecido pedaço de tempo. Seis horas construídas  com uma arquitetura diferente, talhadas na mesma substância das histórias. Falavam-nos do bafo quente dos gerânios inflamados sob um balcão por onde o amor subia até o sono dos jovens. Disseram-nos que antes, quando a madrugada era verdade, ouvia-se no pátio o rumor que se desprendia do açúcar quando subia às laranjas. E o grilo, o grilo exato, invariável, que desafina seus violinos para que coubesse em seu ar a rosa musical da serenata.
Nada disto encontramos  no desolado patrimônio dos nossos antepassados. Nós já recebemos o nosso tempo desprovido desses elementos que faziam da vida uma jornada poética. Entregaram-nos um mundo mecânico, artificial, no qual a técnica inaugura uma nova política de vida. O toque de recolher é - nesta ordem das coisas - o símbolo de uma decadência. Há uma grande distância histórica entre esta clarinada proibida e a voz amável do guarda-noturno colonial. (...) Com este mundo materializado, onde os peixes têm que abrir água aos submarinos, com esta civilização de pólvora e clarins, como podem nos pedir que sejamos homens de boa vontade?

Gabriel Gárcia Márquez em Textos do Caribe.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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