26.1.12

Copa do Mundo, Querosene e Neurotransmissores.


Tá confesso. A culpa é minha. Mas eu tentei. Juro que tentei, mas não consegui. Na verdade sou extremamente frustrada. Eu não queria ser como eu sou. Morro de inveja dessas meninas dondocas que usam rosa, fazem charminho pros meninos, são organizadas, centradas, perdem horas fazendo maquiagem. Eu queria ser pontual, discreta, elegante e inteligente. Mas não!!! Eu não consigo! Aff... só esse ano tentei mudar meu modus vivendis umas trezes vezes mais ou menos. E eu não consegui, não me tornei de modo algum aquela dondoca dos sonhos de qualquer um. Eu nunca serei uma daquelas doces (e entediantes) protagonistas de Malhação. Desculpa, mas eu não tenho paciência pra falar de coisas eminentemente femininas. Perdoem-me se eu nada sei sobre a novela das oito, mas televisão me entedia profundamente. E graças a esse meu temperamento esdrúxulo, já fui chamada de perturbada, maluca, hiperativa. Ou já ouvi frases como: "essa menina não pára?", ou "a mente dela funciona a mil por hora" ou "essa não, lá vem ela!" Gente, eu tentei ser séria, austera e sisuda. Tentei ser Gandhi, Hannah Arendet ou Clarice Lispector, mas simplesmente fracassei . Sorry aos que acreditaram que eu podia mudar! A definição mais bonita que alguém fez de mim foi Saulo naquela feliz tarde de sábado em que muito nos divertimos na orla. Ele disse: "Eu gosto de teu jeito. Você é artista. Estabanada. Como um bom artista deve ser”. Enfim.. Nessa minha luta, como uma boa cientista, busquei a gênese de meu problema. Após investigação rigorosa e sistemática concluí: a culpa é do querosene! Isso mesmo. Você não leu errado. Freud que me desculpe, mas não foi minha mãe. Skinner que me perdoe, mas não foi a minha história de contingências. A culpa foi total e absoluta do querosene...

Aquela era uma bela tarde em 1990, meu pai assistia (não tão feliz) a um jogo do Brasil na Copa do Mundo (que o Brasil era favorito, mas perdeu.). Eu, uma criança gordíssima, gulosíssima e curiosa (segundo relatos) vi uma garrafa de Coca Cola das garrafas de vidro esquecida pela metade perto da pia da cozinha (como vocês vêem a paixão por Coca é de berço!), e sem pestanejar ingeri todo o conteúdo que posteriormente descobri que não era Coca e sim querosene (que é um veneno bem mais potente e bem menos saboroso). Quase morri. Passei meses no hospital. Meus pais brigaram e revelaram o quanto eram inexperientes nessa história de filhos, apesar de eu ser a segunda. Acho que a querosene afetou a dinâmica de meus neurotransmissores e é bem provável que um canal de Cloreto não esteja abrindo ou que um canal de Sódio não esteja fechando, sei lá!
Portanto, me desculpem porque sou assim. A culpa não é minha. É do querosene, da Copa do Mundo e dos neurotransmissores.

1 !:

Luciana Almeida disse...

Ainda bem que era copa, vc era gulosa e o querosene estava lá! Amiga, ainda bem que vc não é dondoca e sim a pessoa mais efusiva que eu conheço. É exatamente assim/e por isso que os seus verdadeiros amigos (posso me incluir?) te amam!
E viva o querosene! =)

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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