1.8.14

sina ou necessidade?*

Hoje ganhei de presente o livro Cien años de soledad, em espanhol, do Gabo; este cara que um dia me disse que todo mundo escreve um único tema e todo mundo precisa escrever. Não consigo escrever bonito como o Gabo, mas não posso deixar de juntar as 20 e poucas letras do alfabeto.
Agosto é o mês que lembro a mim mesmo que escrevo. Que preciso escrever. Que preciso do lápis e do papel e da possibilidade de colocar em signos linguísticos as confusões que me habitam. Faço isso desde que comecei a escrever, em pedaços de papel, em diários coloridos, em folhas de fichário, em arquivos de word e desde 2007 em blogs. O Catanuvens vem sendo esse depositário há 4 anos. Como explicar essa necessidade de gritar, sussurrar ou dizer alguma coisa? Drummond vai falar por mim.



Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.

*pergunta pertinente feita pela Luci no twitter.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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