25.7.13

Gabo,


Na vitrola: La despedida

"Nem no mais delirante dos meus sonhos, nos dias em que escrevia Cem anos de solidão, cheguei a imaginar que poderia ver uma edição de um milhão de exemplares. Pensar que um milhão de pessoas poderiam decidir ler algo escrito na solidão de um quarto, tendo como arsenal as vinte e oito letras do alfabeto e meus dois dedos indicadores, pareceria claramente uma loucura."
|Gabo em Eu não vim fazer discurso|



hoje é dia do escritor aqui no Brasil. A primeira pessoa que veio a minha cabeça foi você mestre. Porque com você eu aprendi boa literatura. Quando li O amor nos tempos do cólera aos 16 anos, fiquei impressionada com  o Florentino e com a Fermina. Como era possível personagens tão tristes e tão bonitos? Como era possível tanta humanidade poetizada na prosa? Até então eu lia aqueles livros a la Dani Steel com personagens brancos,belos, perfeitos e bem sucedidos. Florenntino e seu amor que durou 54 anos e sua carta de 77 páginas me deram um soco no estômago e desde então não me recuperei de você. Depois veio a menina mordida pelo cachorro e o padre atormentado em O amor e outros demônios. E veio o Santiago Nasar morrendo por causa do amor proibido alheio em Crônica de uma morte anunciada. E cada livro terminado eu ficava: "meu Deus que cara gênio!". Mas estava bem longe de eu conhecer o seu melhor. Aí bem de mansinho me chegou Macondo. E até hoje eu tenho certeza de que ela existe em algum lugar. Me disseram que você fazia Realismo Mágico. Que termo mais perfeito pra descrever tua escrita! Não conheço mais realismo cruel e mais mágica poeta que as que tu coloca numa mesma página. Fico sempre lembrando de quando li A má hora e isso era tão claro. E a solidão assustadora que me bateu enquanto eu lia Ninguém escreve ao coronel e A Revoada? Gabo, obrigada por ter escrito O outono do patriarca, é de fato o seu melhor livro, mas Cem anos de solidão e Cândida Erêndida fazem uma frente esplêndida. Até seus contos são bons! O último livro seu que li foi 12 Contos Peregrinos e foi apaixonante! Aff, deu vontade de sonhar. E andar por aí. Obrigado por me apresentar esses personagens que se tornaram  meus amigos. Tem horas que só eles me acolhem.

Desde quando fique sabendo de tua demência no ano passado, fiquei triste. Não haverá mais realismo ou mágica. Ainda bem que temos Macondo e redondezas. Meu sonho de um dia nos encontrarmos Cartagena (mesmo você morando no México eu só te imagino em Cartagena). Vou sentar contigo e conversar  muito, tomando um café (desperte o colombiano que há em você) . Quero ser convencida por você de que o socialismo é o caminho. Na verdade invejo seus ideais. E fico muito triste porque não terei uma continuação de Viver para contar pra ficar um pouco mais perto de tua mente genial. Não tenho ídolos e coisas desse tipo, mas você é sem dúvida uma das pessoas que mais chega perto disso pra mim. Você mudou meu jeito de ver literatura. Eu quis ler os clássicos pós você. Quis ler outros latino-americanos e descobri Luis Borges, Alejo Carpentier, Luís de Sepúlveda e seu "rival" e outro amor meu Vargas Llosa. 
         
Gabo, obrigado por me fazer conhecer literatura. Ou pelo menos pra mim o que é literatura. Obrigado por me apresentar personagens tão pessoais, que por vezes eu me via neles: querendo fazer revoluções fadadas ao fracasso, ou "comendo terra" na confusão de amores contrariados, ou esperando por coisas e pessoas que simplesmente não vem. Eu me perdia e me achava neles.
 Arre, falar de tua escrita e de teus personagens me dá um aperto no peito! Aperto de dor conhecida, aperto familiar, aperto porque eu tenho certeza que esses neurônios estavam pensando em um próximo amigo pra mim. Sim, com 28 letras, dois dedos indicadores e um dom num quarto solitário, seus escritos despretensiosos marcaram minha vida.

Grácias mestre, grácias!

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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