13.1.13

Ser mulher: o pecado de Paulit



No fim eu disse: "Padre, eu tenho AIDS. Antonie passou pra mim"
O padre tossiu. Ele deixou  a igreja preencher o silêncio com sua sacralidade. "Criança", ele disse, "o seu marido também tem aids?'. "Ele não foi testado", disse eu.
O padre respondeu:"Então, criança, não é verdade dizer que ele aids". Suas palavras foram ficando mais incisivas à medida que falava. Baixei os olhos. "Não".
O padre disse, rispidamente: "Então, que perversidade é essa que compele uma mulher a profanar o nome do marido, o nome de um herói nacional?"
As palavras despejaram sobre mim como se não quisessem ser minhas. "Padre, tenho sido um mulher honrada". O padre prosseguiu: "Se você tem sido uma mulher honrada como essa perversidade entrou em você?
Fiquei em silêncio. Como uma lágrima que cai, minha fé começou a deslizar para longe de Deus.
O padre Nyoka falou: "Não apenas o capitão Lemoyne é um herói da República Democrática do Congo, como seu pai é o amado presidente desta mesma igreja". Ele fez uma pausa, e o Sagrado Silêncio se interpôs entre nós. Quando falou de novo, sua voz era forte. "Maldita seja você por profanar o nome deles desse modo abominável, pois é o diabo dentro de você quem fala. É Satanás que embebe o seu sangue com essa perversidade maléfica. Satanás está nas suas veias. Você é filha do diabo - uma filha da aids. Você não pertence mais a Deus".

James Levine, na República Democrática do Congo, DIGNIDADE MSF



O livro Dignidade, experiências do MSF conta uma série de relatos da profundidade do sofrimento humano que a gente insiste em fingir que não existe. A situação de Paulit é uma ferida em meu coração. São muitas Paulits nesse mundo. Muitas mulheres que se descobrem soro positivo e a quem são atribuídas todas as culpas e pecados. Os homens são isentos. São homens afinal. Quando li esse trecho do livro me lembrei de uma experiência de estágio.
Estávamos em um Centro de Doenças Sexualmente Transmissíveis e parte de nossa atividade era acompanhar o momento em que as pessoas recebiam o resultado. Num desses momentos recebemos uma senhora de quase 60 anos, que casou com 15 e teve um único parceiro sexual a vida inteira. Era uma dessas senhorinhas de interior que acham Petrolina (200 mil habitantes) uma cidade enorme! Quando demos o resultado, ela não sabia o que era aids, como ela havia pegado, e porque tal doença se apoderou dela. Ela tinha ouvido na igreja que aids era doença de "gente errada". O que ela era?? Porque ela, que fez tudo como manda a tradição foi presenteada com aquela doença? Que marido era aquele?

O mesmo marido de Paulit. Bom, honesto, herói, intocável, HOMEM. Paulit foi espancada por todos o regimento do exercito do marido, sofreu estupro coletivo por carregar aquele sangue do diabo, foi impedida de ver sua filha, foi marcado a ferro como se fazem em animais. O pecado de Paulit não foi contrair aids de seu marido. O pecado de Paulit foi ser mulher.
Por causa de Paulit(s) sou feminista; pois o feminismo é a idéia radical de que mulher é gente.

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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