10.12.12

Passarinho quixotesco



Na vitrola: Blackbird.


Pois é. Eu conheço um passarinho. Hoje ela completa 25 anos.  Minha amiga, a moça mais chata do mundo depois de mim. Minha melhor amiga da UNIVASF. A única que me viu quando eu era invisível. Ela, que me ensinou tanto e que é sempre tão sabida e que me enche de orgulho. Ela que tem uma vida amorosa mexicana e paranóica. Parece filme de Woody Allen. Ela que me ensina  coisas sobre a cruz e o céu. A moça que eu obrigo a tomar café e vê comigo filmes que não entende. Ela com que eu sempre brigo porque nunca concordamos com as coisas. Ela adora arrumar confusão e ser madura e infantil num intervalo de dois segundos.
Janaína, a outra dobra de meu cordão. Que cuida de mim e sempre vê minha melhor parte. E me dar livros de presente e um dia vai me convencer a ir a um show com ela. Janaína que veio de uma cidade muito menor que ela e divide comigo sonhos que são tão grandes quanto ela. Janaína que não tem vontade própria e sempre cede a minha vontade após uma chantagem elaborada. E é a menina mais valente, corajosa e batalhadora que eu conheço; lutando todos os dias contra a vida que insiste em ser rude, e vencendo mais que perdendo.
Janaína, meio Dom Quixote, desfazendo toda sorte de injustiças, defendendo os oprimidos, caçando conversa com os poderosos, e vivendo todas as façanhas da alta cavalaria; e eu Sancho Pança, acompanhando todas as suas loucuras a contra gosto.
Eu queria que ela soubesse que o meu silêncio não é sinal de que não me importo. Muito pelo contrário, meu silêncio é o resultado de um afetamento tão grande que as palavras me escapam. Elas fogem pois percebem que são escassas e não estão à altura dela.
Guardo pedaços inteiros dela dentro de mim e isto me deixa bonita. Guardo tudo: histórias, bilhetes, brigas, fetuccinis da Bonaparte, confissões, papéis de bala, fotos, cartas, pizzas portuguesas sem azeitona, livros, andanças, 1 milhão de dólares que eu a devo, os risos, as compras na Marisa, as festas sem graça, as viagens, os aniversários a pão com água, os amores, quase amores, desamores, os afetos, desafetos. Os insetos. As dúvidas, o amor louco pelo céu, o colo, os silêncios, a cumplicidade, o mau humor.
Pra ela eu desejo um romance russo, e poesia de Manoel de Barros, música de Palavrantiga, e viagem pela América Latina. Desejo livros de Heidegger que inexplicavelmente ela gosta e momentos pão-com-água com Ilka e Morgana, desejo a concretização dos sonhos de Deus para ela, e filmes que ela entenda. Desejo cafés na D’Eliz e Subway. E tardes de sábado na orla. Desejo muitos desejos, como diria o Drummond.
E desejo asas bem grandes e vôos bem altos, afinal ela é meu passarinho.


Amada, desejo que te vá bem em todas as coisas e que tenhas saúde, como bem vai a tua alma.
(Judas, v.2)

P.s: Finjam que esse post foi publicado ontem, 09/12/2012.

1 !:

Joabe Nunes disse...

Tão você Ailma Barros
*____________*
Abraço

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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