12.10.12

todo menino é um rei.

O menino me ensina
como um velho sábio
o quanto sou menina.
(AliceRuiz)



Bonnie Neugebauer diz que nós militantes da infância trabalhamos pelas crianças, para as crianças e em dias bons com as crianças. Ontem após um dia exaustivo de reuniões e estradas fui jantar com minha colega de trabalho.Trocávamos impressões sobre o dia e sobre nossa perplexidade com as eleições que geravam tanto ódio e ofensas em gente pequena.
Dois meninos que pareciam ter cinco anos pediam esmolas entre as mesas. Eu já tinha visto aquela cena mil vezes quando saía com meus amigos em minha cidade. Minha amiga e eu não tirávamos os olhos dos meninos, afinal é por eles que trabalhamos, ou não era eu quem estava com a camisa pelo fim do trabalho infantil? Os dois recolhiam os restos de comida que as pessoas deixavam nas mesas. A maioria das pessoas conseguiam fingir brilhantemente que eles não estavam ali. Eu não consegui. Chamamos os dois para se sentarem conosco. Eles pediram, numa empolgação que só as crianças sabem ter, torta de chocolate e emburgo (não, eles não sabiam falar hambúrguer). Começamos a conversar. Eles tinham 10 anos. Os garotos mais velhos mandavam que eles pedissem e depois de batê-los ficavam com o espólio. Um deles morava com a avó e a mãe, tinha mais três irmãos, um com câncer, estudavam no programa Se Liga do Governo do estado de Pernambuco (o que significa dizer que não sabem ler). Ouvimos aquelas tragédias de vozes tão pequenas, tão ingênuas com relação a própria situação de miserabilidade e vulnerabilidade. Quando perguntamos porque eles pediam esmolas, a resposta foi simples: ter dinheiro para comprar roupas e comer.
- E o Bolsa Família? Sua mãe não recebe?
- Recebi sim. Mas gasta com cachaça. Todo dia ficamos aqui até conseguir dois reais para comprar o pão e aí vamos embora.
...

Quando crescer eles querem ser policiais para matar os bandidos com uma bazuca bem grande. Pow!


Como de fato podemos mudar a vida de nossas crianças positivamente? Só a transferência de renda não resolve. Como fortalecer a vida de proteção a criança? Quando enfim verei as crianças de Ouricuri, de meu Pernambuco e do Brasil sendo de fato cuidadas e protegidas? Como Che, endurecer sem perder a ternura?

1 !:

Anônimo disse...

Ailma eu fiquei estarrecido com essa história. Realmente é um pena. Dói saber que existe situações como essa. Que possamos realmente encontrar uma forma de ajuda-las de verdade :/

Joabe Nunes

Ailma,
árvore plantada junto a ribeiros de água, muito prazer!

 
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